quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ponto de Vista Contrário

Qualquer iniciativa pública de contribuição para o debate é de louvar, mas é preciso ter em atenção os factos. Conotando um manifesto como "de economistas" é importante não perder a perspectiva do país como um todo e não subverter o debate ao que é debatido entre políticos. Os objectivos deste manifesto parecem incluir passar a ideia na opinião pública de que há economistas que querem o TGV e o aeroporto. O “manifesto dos 28” não defende o fim do investimento público, mas sim a análise mais aprofundada do mesmo. A questão do desenvolvimento do país a longo prazo estar dependente do TGV e do novo aeroporto de Lisboa é extremamente redutora do futuro do país. São também omissos deste manifesto os investimentos que têm sido discutidos como as auto-estradas e a TTT. Relativamente ao investimento em infra-estruturas marítimo-portuárias seria importante saber qual foi feito e se consideram que, tendo em conta o plano estratégico de transportes de Portugal, este é suficiente.

Mas mais do que isto, é importante dizer que o futuro do país não passa por estes investimentos. E é o futuro de Portugal que deve ser debatido entre economistas, nomeadamente quais os desígnios nacionais para as próximas décadas.

Estudos

É importante referir que se é verdade que se estuda o novo aeroporto há 40 anos, também é verdade que foi ainda no ano passado que a sociedade civil discutiu e conseguiu evitar o grande erro de construir o aeroporto na Ota. Os estudos são importantes. Importante também é referir que tendo mudado a localização do aeroporto, o projecto do TGV se mantenha inalterado (ainda estando projectado passar pela Ota). Os estudos são importantes. O Alqueva merecia ter sido mais estudado. A sua utilidade está a servir apenas o turismo neste momento, sendo o regadio (factor essencial para a sua importância estratégica) mínimo, decorridos tantos anos após a conclusão da sua construção. Foz-Côa, que não foi há assim tanto tempo, foi um desperdício de recursos pela decisão da suspensão da obra, com a suposta prioridade a ser dada à preservação do património cultural ali descoberto (quando havia outras possibilidades para o fazer, sem prejudicar a barragem). Perdeu-se a oportunidade de desenvolvimento de uma região e ainda hoje se desperdiça recursos num museu vazio por falta de estudos. Finalmente, como é sabido, numa análise de investimento, os estudos e seus custos passados são considerados custos afundados, não devendo portanto ser considerados.

Desenvolvimento tecnológico e energético

É fundamental referir-se que o desenvolvimento da indústria tecnológica e energética em Portugal em muito pouco depende da construção dos transportes referidos (TGV e aeroporto). A diminuição da burocracia, o incentivo ao investimento em I&D, a criação de parques tecnológicos, as parcerias entre universidades (e o apoio às mesmas), entre outros, são muito menos custosos e têm um efeito multiplicador muito maior. O investimento sério nestas áreas, apostas nas start-up, apoio às energias renováveis (até pela diminuição do défice energético) tem impacto directo na criação de postos de trabalho qualificados de longa duração, diminuição das importações e aumento das exportações com mais valor acrescentado. Estes factores são essenciais para criar “um contexto das condições favoráveis ao desenvolvimento da iniciativa empresarial”, grande impulsionador sobretudo das PMEs, constituintes de cerca de 90% do tecido empresarial português.

Aeroporto

É importante que seja esclarecido o modelo defendido relativamente ao aeroporto. A localização do mesmo em Alcochete permite a construção em módulos, o que permitiria uma contenção nos custos e adequação ao crescimento do tráfego na Portela. Assim, manter-se-ia a Portela (tal como em todas as cidades do mundo que têm aeroporto no seu centro) e constrói-se um na periferia para ser um hub nacional, ibérico e europeu. É também essencial saber-se o modelo de privatização da ANA, o qual deve evitar um monopólio a nível nacional para manter a coesão das regiões servidas por aeroportos estratégicos.

TGV

Seria importante perceber a fundamentação económica da seguinte afirmação “absoluta necessidade de não ficarmos de fora da rede europeia de alta velocidade”. O desenvolvimento do país depende de termos TGV ou não? Sem TGV é impossível desenvolvermo-nos? Como já foi referido, muitos países nórdicos (alguns dos mais desenvolvidos do mundo) não estão ligados à proclamada essencial rede europeia de alta velocidade. Não seria muito mais importante ligar as cidades de média dimensão (consideradas essenciais para o desenvolvimento e coesão do país) por ferrovia, efectuando ligações com Espanha também, permitindo fomento das relações económicas e a internacionalização das empresas de pequena e média dimensão portuguesas em Espanha e vice-versa. Se se quiser diminuir a ligação Porto-Lisboa, apenas é preciso aproveitar o investimento que foi feito no Alfa Pendular, diminuindo o nº de paragens em determinadas horas de ponta e investindo nos carris que em algumas zonas impedem o comboio de circular à velocidade para a qual foi construído. Nem deve ser necessário referir que de todos os estudos, nenhuma análise (muitas delas já demasiado optimistas) mostra que o investimento no TGV é um bom investimento (já incluídas as externalidades de desenvolvimento locais nas estações).

Para terminar, gostaria de referir que ter coragem é promover soluções alternativas de desenvolvimento do país como faz Hernâni Lopes.

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